sábado, 23 de julho de 2011

Alguém para amar - Relbier Oliveira

Alguém para amar, queria Mercury (o Freddie). Dizia ele que apesar de ser amado por milhares de fãs, sempre se sentiu sozinho. Alguns dizem que o amor é como toda panela, para toda qual sempre há uma tampa; e assim, para cada pessoa há outra, a quem se amará e por quem será amado. “Você existe, eu sei”, dirá Bruno Gouveia: toda laranja partida tem sua metade complementar, todo chinelo velho acolhe justamente um pé cansado, e assim por diante. Saberes populares sobre um campo da vida humana poético, filosófico, científico, religioso e tudo o mais, o amor, ou as relações romântico-afetivas. A voz do povo é a voz de Deus. E quem sou eu para discutir com Deus? Na verdade, eu quero crer que ele está certo. Eu torço para que esteja certo, tenho fé e esperança nisso. O pedante arquiteto de nossa Matrix (que não é Deus, espero eu) diria que esta última, a esperança, é ao mesmo tempo nossa maior fraqueza como também fonte de onde emanam nossas maiores forças. Para não ter que ir muito mais além, seria essa a dialética que nos põe em movimento? Ou não, talvez seja isso reduzir demais a essência humana, radicalizando desnecessária e perigosamente o raciocínio – o que me faz lembrar um novo amigo, que tem esse defeito. Mas já nos afastamos demais do assunto primeiro.

Uma dúvida me tira o sono (eu, que estou solteiro [solteiro sim, porém sozinho nunca... aff!]); essa dúvida me lança em pesadelos, me faz delirar, suar e estrangular meu ursinho Puff com um forte abraço de pavor (sim, porque na minha época se chamava Ursinho Puff, e não Pooh!): pode mesmo, na vida, um indivíduo desgraçado passar ao largo da sua alma gêmea, tal qual Freddie? Porque o saber milenar exotérico da própria voz de Deus diz apenas que para cada qual há o seu, como naqueles diagramas de Venn. Não diz que o par necessariamente deva se encontrar na vida. Talvez seja meramente provável que eles devam se encontrar (e isso tudo porque não quero colocar em dúvida aquela afirmação [supostamente] proferida por Deus, da qual partimos).

Mas então, o que viria a determinar o desencontro dessas almas (ou, antes, seu encontro)? Quem decide pelo fim que terá essa dupla jornada? Somos nós, em alguma medida, responsáveis pelo o que virá a acontecer? Se eu ficar parado, escondido, em algum ponto solitário dessa terra, no mais longe que eu conseguir me refugiar, terei eu a sorte de esbarrar com minha metade? Por outro lado, haveria algo que eu pudesse fazer para otimizar esse desenlace?

Apesar de tudo o dito, enquanto tem uns que choram por não ter encontrado ninguém para amar, parece, de outro modo, haver outros que não só encontram seu complemento como também seu suplemento. E assim eu me pergunto: exceto aqueles casais romanceados de ficção (telenovelas, literaturas e fantasias juvenis), de única entrega na vida (e entrega mútua – oh, sei: tratam-se daquelas figurinhas que sempre faltam para fechar o álbum), acaso nos divertimos com a metade dos outros ou há mesmo alguns outros que vêm ao mundo para não terem metade? Que medo!

Parece, pois, tão tentador considerar que não haja regras para esses assuntos, mas seria pior, e eu quero acreditar. Se encontraram regularidade nos resultados advindos do lançamento de uma maldita moeda, por que não no amor? [Retórica].

Talvez a explicação para esse enrosco pseudointelectual, que vislumbra uma regra para os assuntos do coração, seja a seguinte: parece haver uma regularidade, as pessoas apenas ficam sozinhas se só quiserem um amor perfeito, do tipo ideal. A ideia desse tipo de amor, por sua vez, deve ser fruto de algum virgem que escrevia bem e tinha boa imaginação, mas que provavelmente nunca experimentou a desgraça que é se relacionar realmente com alguém. Essa maldição foi posta em todos os demais como uma cenoura amarrada na cabeça de um cavalo, estando ela a meio palmo da boca do infeliz, que a persegue faminto, cego e sem razão. Todos, a princípio, foram feitos para todos; e por intermédio de algumas contingências ambientais (bah!), moldaram-se e selecionaram-se os gostos. Quem pode mais chora menos, e assim por diante. Ou seja, a sua metade é fruto da surra que você levou da vida.

Mas não. Talvez essa revolta toda seja fruto de frustração, “máquina de fazer vilão”. E tudo começou porque o Freddie, assim como eu (e todo o mundo, provavelmente), queria ter alguém para amar. Pode ser que a culpa não seja do virgem. “Vai que essa ‘lenda’ do amor ideal não esteja dentro de todo o mundo desde sempre!”. E certamente uns e outros dirão “eu conheço alguém que viveu um amor assim”, ou, “eu vivo um amor assim!”. Eu espero, francamente, que isto seja verdade, que esta espécie de amor seja possível. Que seja a esperança motor das minhas maiores forças; que a voz do povo seja a voz de Deus, e que portanto eu ache a minha metade da laranja. Pois dói só de pensar que o que sobrou pra mim foi só “o bagaço da laranja”.

OBS: Por favor, respeitem a minha metade da laranja: não faça com a metade dos outros o que você não quer que façam com a sua!

5 comentários:

  1. Como alguém vai conseguir ler o texto com essas laranjas tão bonitas a nos distrair?

    ResponderExcluir
  2. Oi Relbier, passei para agradecer a gentileza de te-lo no meu blog. Nao me parece que cc tenha problemas com a sua metade da laranja, a nao ser a de escrever uma boa cronica! Que os musicos continuem a nos dar bons pretextos!
    Abraco.

    ResponderExcluir
  3. Ora, que é isso, Cecília :) Agradeço muitíssimo sua participação no nosso blog e seu comentário. Espero que vc nos prestigie outras vezes mais (e, quem sabe [pq não?] tb publique algo no nosso humilde espaço).
    De fato, a música, poesia musicada, é cheia de motivos. Mas o mundo todo tb o é, e assim dificilmente nos faltarão motivos para escrever.
    Quanto à minha metade da laranja, espero mesmo que vc esteja certa, hehe.

    Abraço ;)

    ResponderExcluir
  4. Caio Negreiros Cachuté3 de agosto de 2011 às 12:21

    Eros e Psiquê: duas metades opostas que eram o mesmo ser. Ânima e Ânimus – parte feminina do homem e parte masculina da mulher, respectivamente.
    Deus me livre do amor ser científico, hahaha; na tentativa de explicá-lo vc o aniquila.
    Penso que um raciocínio radical seja mais uma questão de estilística, sem afetações acadêmicas ou coisas afins, sem ter a preocupação em lograr alguma verdade precisa e absoluta.
    Na minha opinião, alma gêmea é um tipo de idealismo platônico piegas. Um certo tipo de refúgio para aqueles os quais não sabem enfrentar as imperfeições do outro.
    A maioria de nós ( se não todos) vem ao mundo para viver sozinho e morrer sozinho, porquanto dois indivíduos nunca se entenderão completamente, e os nossos desejos são nossos desejos, de mais ninguém.
    Regularidade nos resultados advindos do lançamento de uma maldita moeda (lançada ao acaso) pode até haver; mas o que subjaz esse fenômeno é a imperfeição com sua feição desconhecida, sombria e disforme, por conseguinte bela!
    Um casal que me vêm à mente, quando penso em uma eventual união de duas metades da laranja: Heidegger e Hanna Arendt ( um nazista e uma judia).

    Um abraço!

    ResponderExcluir
  5. Grande Caio... Está escrevendo bem, hein, muleque! Curti seu raciocínio, valeu!

    ResponderExcluir